sábado, 20 de fevereiro de 2016

II - Da Suíça ao Marrocos

Em 1912 Yakov tinha 35 anos e Annette 31. Embora não tivessem mais idade para aventuras romanescas, fugindo de suas famílias para viver uma fantasia amorosa em um país distante onde ninguém os encontrassem e despertassem de seus sonhos, foi exatamente isso o que fizeram.

O destino os juntou às margens do Lago Léman, não para uma aventura passageira mas para um compromisso para o resto de suas vidas. Que artes de Cupido os levou àquele específico lugar, naquele preciso momento? Pode-se apenas conjecturar.

Um observador distanciado daquelas emoções teria imaginado que Annette tinha outras preocupações naquele verão do que exibir suas habilidades ao piano para deleite de apreciadores da música e para auxiliar obras de caridade. Seguramente estaria cuidando, e com muita razão, como filha mais velha que era, de buscar solução para as dificuldades que toldavam o futuro de sua família à medida que se esgotassem as economias deixadas pelo pai, falecido dois anos antes.



Jane e Annette. Lausanne, c. 1912

Afinal, eram tempos em que as mulheres ou tinham maridos ou eram pobres. James Edward Moore, seu pai, embora nascido de família de artesãos  na pequena ilha britânica de Jersey, a poucos quilômetros da costa francesa, conseguira registrar-se como dentista em Londres e, depois, estabelecera-se com consultório  em Paris. [1] Alí conheceu Caroline e com ela se casou em 1880. Não há registros que tenha deixado bens. Era de Annette, portanto, a responsabilidade maior de encontrar arrimo para a velhice da mãe, Caroline, e de ajudar sua irmã, Jane, a encaminhar seu próprio futuro.  Coubera-lhe aprender as artes da administração do lar familiar e tomar lições de boas maneiras e de bem apresentar-se em sociedade. Era o que precisava para esperar o que a sorte lhe trouxesse pelo casamento.[2] Disso não podia queixar-se, pois a mãe havia nascido em Florença, no seio de uma família suíça, os Augier-Cailler, com destacada atividade no ramo de hotelaria na histórica cidade italiana.  Sua educação não ficara a dever nada pelos padrões da época, e mesmo que seu aprendizado musical tivesse sido excelente, era impossível que decidisse viver de sua arte sem que para isso tivesse que enfrentar um mundo de preconceitos.

Assim, aquela viajem à Suíça, parece ser menos um indicativo de lazer despreocupado do que a busca de apoio no seio da família materna, que seguindo as tradições de seus antepassados, se dedicavam à hotelaria na estância turística de Villars d’Ollon. Uma cidadezinha que ficava a escassos quilômetros de Montreux no romântico Lago Léman, onde estariam os Ganzelevitch hospedados.

Tudo indica que eles estivessem a passeio na Suíça, pois não havia naquele ano nada que os obrigasse a abandonar a Rússia às pressas. Não havia movimentos de perseguição aos judeus e a afirmação feita pela Sra. de Mazières de que as casas comerciais de Yakov tivessem sido incendiadas na esteira da revolução de 1905 e também pelo fato de ser ele um patrão rígido (p. 13) não encontra qualquer fundamentação. Até porque no verso da foto de uma dessas casas comerciais consta, em russo, que a mesma havia sido construída por Yakov no ano de 1908.


Nicolai, Piotr e Yakov em Montreaux, 1912[3]

Além do mais, a situação política na Europa, apesar de alguns conflitos localizados, não parecia conduzir necessariamente à guerra que se declararia dois anos depois e consumiria milhões de vidas. Tampouco se poderia considerar provável a realização do golpe comunista de 1917, fenômeno que seria viabilizado principalmente pelas derrotas russas na Primeira Guerra Mundial.

O que talvez parece razoável supor é que os Ganzelevitch tivessem ido à Suíça fazer o que muitos empresários então faziam: cuidar de seus interesses financeiros juntos a algum banco daquele país, fato suficiente para justificar a presença dos três homens da família. Naqueles tempos, como hoje, uma conta bancária na Suíça pode ser movimentada apenas com o acesso a uma senha. Os Ganzelevitch poderiam fazer suas transações em família, simplesmente compartilhando um código numérico. E em caso de alguma dúvida apelava-se apenas para a judiciosa e respeitada intervenção do rabino. Era menos complicado, não se ficava à mercê de confiscos políticos ou religiosos e não se pagavam impostos.

De qualquer modo, as grandes diferenças entre Annette e Yakov fariam com que o hipotético observador de que falamos acima julgasse improvável que daquele encontro surgisse uma relação duradoura e capaz de dar um novo sentido e rumo às suas vidas. Ela por certo jamais teria levado a sério a idéia de se adaptar à vida siberiana, ainda que lá pudesse desfrutar de excelente condição econômica. Nada tampouco indicava que o jovem e bem sucedido empresário estivesse disposto a deixar para trás seus empreendimentos e o lugar onde era reconhecido. Mas Cupido foi certeiro e fez com que o improvável se realizasse.



Annette e Yakov, 1912 (note-se que as roupas e o chapéu de Yakov são
muito similares à da foto anterior, em que aparece com o pai e o irmão em Montreaux.

No dia 12 de outubro Annette foi à Embaixada Francesa em Genebra para retirar seu novo passaporte. O documento informa que ela tinha residência em Clarens (Montreaux) e que declarava sua intenção de viajar para o Marrocos. Cinco dias depois estavam em Paris onde Annette obteve uma cópia de seu registro de nascimento. O documento contém um visto para a legação francesa em Gibraltar. Supõe-se daí que pretendiam casar-se logo em seguida, no Gibraltar. Talvez devido à burocracia mais morosa do que o previsto, decidiram atravessar o Mediterrâneo ainda como solteiros para começar vida nova em Tanger.

Por que em Tanger? Por que o Marrocos, um país ainda semi-bárbaro? Tanger era a mais próxima entrada para a África, para quem parte de território europeu e o Marrocos era um país onde já estavam instalados os interesses coloniais espanhóis e franceses. A favor do novo país ainda contava o clima, bem mais ameno dos que seus países de origem.

Para Yakov o novo ambiente não deveria parecer muito diferente da sua Sibéria, igualmente terra de aventureiros e desbravadores e de povos muitas vezes levados à força para colonizar as intermináveis savanas. Para Annette, acostumada às facilidades da vida parisiense, a diferença seria muito mais sentida, embora talvez se deixasse levar pela idéia de se tratar apenas de uma etapa passageira e que logo teria a oportunidade de voltar para um centro mais civilizado. A presença dos interesses franceses no país, alem do mais, era uma garantia de segurança e lhe dava possibilidades de continuar convivendo com a sua cultura.

No ínicio de 1913 Annette engravidou de seu primeiro filho, Wladimir. Em 30 de março ela e Yakov casaram-se em Tanger.[4] Por alguma razão formal foram obrigados a retornar ao continente europeu para formalizar seu casamento na igreja presbiteriana de Gibraltar, no dia 20 de abril.


Registro do casamento de Yakov e Annette: Andrew’s Presbiterian Church/Gibraltar
(este documento foi obtido por Nadine Ganzelevitch, em 2013)

A guerra de 1914 e principalmente a instauração do regime comunista na Rússia a partir de 1917, liquidariam qualquer pretensão de Yakov de regressar ou mesmo rever sua terra natal e os familiares que lá deixara. Consta que seu pai teria ido a Tanger, em 1913, por ocasião do nascimento de Wladimir, mas uma segunda viagem programada para o ano seguinte já não pode ser concretizada devido ao início da guerra. Por outro lado, os outros cinco filhos a que Annette daria à luz nos anos seguintes aprofundariam as raízes do casal em solo marroquino. Lá ficariam até o fim de suas longas vidas.

(versão modificada em 25/02/2016 para mencionar a passagem por Paris, a 17/10/1912).


[1] No registro de batismo de James Edward, seu pai é mencionado como sendo “dourador” (gilder). Não se encontrou nada que sustente a hipotese de Annette ter como ancestral pelo lado paterno o poeta irlandês Thomas Moore (1779-1852), como sugere a Sra. de Mazières (p. 9).  A pequena árvore genealógica dos Moore, de Jersey Island, encontrada no acervo de Nádia não permite fazer qualquer ligação com o homônimo irlandês.
[2] Em 1908 Annette havia solicitado em Paris uma certidão de nascimento sobre a qual se inscreveu a palavra “mariage”, o que sugere que estivesse em preparativos para um casamento que por alguma razão não ocorreu.
[3] A foto foi feita no estúdio do fotógrafo alemão Rodolphe Schlemmer (1878-1972).
[4] Como consta de um certificado de matrícula junto ao consulado francês em Tanger, expedido em 19/06/1923.

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