sábado, 13 de fevereiro de 2016

I) Fotos e memórias: os acervos de Yakov Ganzelevitch e Annette Moore

Yakov Ganzelevitch era russo, natural de Tomsk, na Sibéria. Casou-se em 1912 com a francesa Annette Moore que havia conhecido na Suíça. Foram viver em Tanger, Marrocos, um pais sob forte influência francesa. Passou a adotar o francês como sua nova língua e a chamar-se “Jacques”.

Yakov e Annette tiveram seis filhos, todos nascidos em Tanger e a quem deram nomes russos: Wladimir (1913), Oleg (1915), Boris (1917), Alexander (1919), Nadejda/Nádia (1922) e Serge (1924).  Com eles as raízes do casal se agarrariam firmemente ao solo marroquino. Lá ficariam até o fim de suas longas vidas.

Independente do motivo que os levou ao Marrocos, o fato é que essa escolha acabaria proporcionando à família um distanciamento seguro das consequências da primeira guerra mundial (1914-1918) e da guerra civil na Rússia, em 1917. 

Por ter deixado a mãe e uma irmã na França, Annette nunca abandonaria suas ligações com seu país de origem. Em 1918 recebeu a visita de sua mãe em Tanger e em 1920 ela foi com toda a família passar uma temporada na França e Suíça. 

Para Yakov, entretanto, aquelas conflagrações teriam acarretado um corte definitivo com seu passado na Rússia e a perda de contato com os membros de sua família.  

Yakov tornou-se no Marrocos um empresário de obras públicas, envolvendo-se em projetos coordenados pela administração francesa naquele país. Faleceu ao 81 anos, em 1959. Annette viveu até a idade de 88 anos, tendo falecido em 1970. 

Nádia foi a última representante dos Ganzelevitch em Tanger. Ela faleceu em 2008, aos 85 anos. Seus dois filhos haviam falecido antes dela sem deixar descendentes. Todos os demais filhos de Yakov já haviam falecido e nenhum dos seus netos permanecia no Marrocos. Os seis filhos do segundo casamento de Wladimir viviam no Brasil desde 1953, e desde 1974 também Dimitri, filho de seu primeiro casamento. Os filhos de Alexander estavam radicados na Europa (Espanha e França), assim como sua primeira esposa, atualmente com 94 anos. Boris, Oleg e Serge não tiveram filhos.[1]



Cemitério de Boubana, Tanger: túmulo dos Ganzelevitch[2]

Nádia havia ficado viúva em 1948, com apenas 26 anos, e com o encargo de dois filhos pequenos. Por conta disso voltou a viver com seus pais o que a fez herdeira natural dos registros e fotos dos pais. Pouco antes de falecer ela decidiu destinar à sua sobrinha Carmen, no Brasil, as velhas fotos e documentos que guardara por tantos anos. Essa decisão talvez já a tivesse tomado anos antes, em 2005, na última vez em que estivemos com ela, em Tanger. Revelou, então, que havia ficado muito sensibilizada por havermos feito em 1992, uma longa viagem ao interior da França para conhecer seu irmão caçula, Serge, que vivera quase toda a sua vida isolado do convívio familiar, internado em uma clínica para deficientes mentais. 

Esse precioso acervo, que chegou às nossas mãos ao final de 2011, além de fotos e documentos sobre a família de sua mãe, os Augier-Moore, também um pequeno conjunto de fotos russas relacionadas com a história e a família de seu pai.[3]

Também recebemos uma cópia de uma pequena publicação em que se traçava a biografia de Yakov. A autora era a Sra Pauline de Mazières (Prascóvia Cheremeteff) que, algum tempo antes da morte de Nádia a havia procurado sob a alegação de que pretendia escrever as biografias de alguns personagens russos que se haviam destacado em Tanger no século passado, sendo o primeiro deles Yakov Ganzelevitch. De Nádia a Sra. de Mazières ouviu histórias e obteve por empréstimos grande parte da coleção de fotografias russas. 

Nádia, entretanto, não chegou a ver publicada a biografia de seu pai, só editada em 2009.[4]


Capa do livro sobre a biografia de Yakov Ganzelevitch.

A Sra. de Mazières escreveu que Yakov já trabalhava aos  quatorze anos de idade em uma mina de ouro. Pouco depois, ainda rapazote, ele havia chamado a atenção dos engenheiros que construíam a estrada de ferro Transiberiana, sugerindo traçados alternativos para a passagem dos trilhos na região de Tomsk. Por isso teria sido contratado para trabalhar na ferrovia, chegando a ter vagão próprio e até mesmo cozinheiro a seu serviço exclusivo. Aos trinta anos já havia se tornado um homem rico e um amante da música.

Também conta que apesar de todas as conquistas em sua Sibéria natal, teria deixado tudo para trás ao se apaixonar, em 1912, na Suíça, pela franco-inglesa Annette Augier Moore. Conhecera-a quando ela demonstrava suas habilidades ao piano (teria conquistado um prêmio no Conservatório de Paris) em concertos para obras de caridade. Diz ainda a autora que Annette era descendente do poeta Thomas Moore. 

A paixão foi tão grande que exigia ser vivida em um novo lugar, que nada tivesse a ver com suas vidas passadas. E assim escolheram o desconhecido Marrocos.

É evidente que as passagens relativas à vida de Yakov em Tomsk, assim como as de Annette, em Paris, soam romanceadas, talvez para realçar a paixão que os teria envolvido na Suíça, esta evidentemente verdadeira. É possível também que por conta do estado depressivo em que Nadia passou seus últimos meses de vida a Sra. de Maziéres tenha ficado impossibilitada de esclarecer com ela alguns pontos importantes da vida de seu biografado. E talvez por essa razão a história de Yakov tenha se restringido a apenas treze páginas do livro, sendo quase metade desse espaço ocupado com fotografias.  

Uma dificuldade adicional da Sra. de Maziéres terá sido o seu desconhecimento da língua de seus antepassados, o que ocorria certamente com a esposa e os próprios filhos de Yakov. Isso fica evidente ao confrontarmos seus comentários sobre as fotos de Tomsk que publicou com as anotações manuscritas, em russo, que se encontram no verso de algumas dessas imagens.

Por todos esses percalços entendemos que a versão biográfica que ela publicou pouco poderia contribuir para o conhecimento da saga de Yakov no Marrocos, e muito menos de seu passado na Rússia. Muitas dessas lacunas, evidentemente, só o próprio Yakov poderia preencher, o que não seria mais possível. Entretanto, pareceu-nos valer a pena algum esforço para explorar com mais detalhe o acervo deixado por Nádia e pesquisar as novas fontes de informações que atualmente a internet nos oferece.[5] Além disso, acreditamos que algumas das histórias de Yakov e Annette possam ter ficado gravadas nas memórias dos netos que tenham tido a oportunidade de compartilhar algum momento de suas vidas.  Este texto, portanto, assim como os que lhe devem seguir, tem o objetivo de compartilhar o acervo cuja manutenção temos hoje o encargo de conservar, e também de servir de estímulo a que todos possam trazer suas contribuições à história familiar.

A primeira e talvez mais importante descoberta realizada a partir desse acervo foi a identificação e o contato com os novos “primos” Ganzelevitch, atualmente radicados em Israel, mas nascidos na Rússia, na região de Tomsk. Com eles estamos trabalhando desde 2011 para encontrar os elementos que identifiquem com segurança os laços familiares que nos ligam e novas pistas para conhecer o passado de Yakov em Tomsk.


Notas
[1] Yakov teve ainda um filho de um relacionamento anterior ao seu casamento com Annette, cujos descendentes,, recentemente localizados, vivem no interior da França.
[2] As inscrições indicam estarem ali os restos de Yakov, Annette, os filhos Boris e Nádia, e o neto Oleg,
[3] Nádia já havia, anos antes, cedido a Wladimir, também seu sobrinho do Brasil, um conjunto de documentos que pertencera ao pai, registros esses a que tivemos acesso e fotografamos na época.
[4] É de se acreditar que Nádia não tivesse lido a versão final desse texto. A Sra. de Mazières devolveu as fotos a Dimitri Ganzelevitch, que as entregou posteriormente a nosso filho Wladimir.
[5] Inclusive no idioma russo, embora neste caso utilizando as ferramentas de tradução, ainda precárias, mas razoavelmente eficientes.

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